talvez azul

1.18.2005

Ao que a fama obriga

Fiquei doente com uma gripe que aparece na televisão à hora do telejornal!

1.16.2005

Há sempre uma desculpa

«Este livro é banal, propositadamente, de quando em quando. Quero lisonjear o público dando-lhe a ilusão que percebe tudo, só porque percebe algumas frases.»

Teoria da Indiferença, António Ferro

Afinal foi só isto...

«As frases que se atiram numa conversa de café são sempre brilhantes. A inteligência não tem tempo de as ouvir...»

Teoria da Indiferença, António Ferro

Mulheres II

«As mulheres servem-se, muitas vezes, da boca, para dar um beijo, com o mesmo sentimento com que abrem o porte-monnaie para dar uma esmola.»

Teoria da Indiferença, António Ferro

1.11.2005

Mulheres

«Mulheres são os melhores juízes de mulheres.
Disseram filósofos e moralistas, uns grandes santos como São Paulo, e outros grandes ateus como Voltaire, que a mulher é um ser exuberante de sensibilidade, e apoucado de raciocínio.
Se o absurdo vinga, se, por alvitre grosseiro do mais forte, a mulher é um ente inepto para exercitar a razão, com que direito as julgamos e sentenciamos, segundo a razão, sendo as suas culpas demasias do sentimento.
A injustiça é flagrante e odiosa.»

O que Fazem Mulheres, Camilo Castelo Branco

12.17.2004

Escadas Rolantes

Gostava de conseguir (por vezes) pôr os pés nas escadas rolantes e deixar que elas me levassem.

12.06.2004

Não percebo

«A Augusta abraça-me ao despedir-me e pendurada no meu pescoço diz-me carinhosamente, numa súplica que é uma carícia:
- Não te esqueças de mim, não?
- Esquecer-me de ti! Porque perguntas isso?
- Não sei, tenho medo... medo desta minha felicidade.»

Diário Íntimo, Manuel Laranjeira

Quarta, 15 de Julho, mas podia ser um dia qualquer

«Um dia horrível de tédio. Pela madrugada vou a casa de Augusta, que encontro acpordada, esperando-me.
Iludo-a, iludo-me... Que culpa tem ela de eu ser assim? Dissimulo o meu estado. Mas ela adivinha-me e volta a dizer-me que dava tudo para adivinhar o segredo da minha tristeza. Nego. -Não negues; os teus olhos dizem-no. Assim eles dissessem tudo e me contassem o segredo dela. E não foge do abismo, esta alma!»

Diário Íntimo, Manuel Laranjeira

Esteira V

Nasceste com o esforço. Ela ainda não tinha terminado o tempo. E estava vermelha e as veias sobressaíam roxas e vincadas na fronte. Os dentes serravam-se sobre os lábios, já sem cor. Malvada, estava naquilo há duas horas. E eu pensei nos dois feijões que tinha desperdiçado. A enxada continuava presa no chão, como tinha estado nos últimos dez anos. Olhei para o céu. A chuva vinha aí e a malvada estava naquilo há duas horas. A enxada parecia que lhe troçava o esforço pateta. E as bochechas estavam cada vez mais inchadas, cada vez mais vermelhas. E as saias colavam-se às pernas com o suor, e as costuras da camisa começavam a dar de si e a soltarem-se uma a uma, à medida que o peito se enchia de ar suspenso e não expelido. E vi. Primeiro as costuras das costas. E as linhas a saltarem como balas. Depois as do peito. E as linhas a saltarem como balas. As dos ombros e, de seguida, as dos braços. E as linhas a saltarem como balas. E a mulher estava nua da cintura para cima, com os restos de camisa a caírem-lhe sobre a cinta, e estava em posição fetal, mas de pé, e das pontas dos seios multiplicavam-se as estrias, que lhe percorriam o colo e os braços e acabam nas mãos. E nas mãos o pau da enxada. O pau imóvel da enxada. E olhei o céu que ameaçava abrir-se em àgua. E pensei: malvada. O cabelo começou-lhe a cair em farrapos por causa do esforço e os braços eram troncos de árvores, a que cortaram a rama e deixaram os veios da madeira que dilatavam com a seiva. Olhei o céu. E pensei: malvada. E foi nesse momento, quando ela estava em posição fetal, mas de pé, que algo caiu para o chão por entre as saias e percebi que eras tu. Não choraste. Não te mexeste. Como se não tivesses reparado que já estavas cá fora e não lá dentro. E foi quando caíste no chão que a enxada mexeu. Primeiro pensei que era erro da vista. Mas ela tinha mexido e fez o primeiro sulco na terra. E ergueu-se no ar, na promessa do segundo. Mas os pés falharam o chão e vi aquela mulher a desaparecer pela terra a dentro. E vi-a. A face transfigurada, com algumas veias que lhe tinham rebentado junto às sobrancelhas, e os olhos inundavam-se de sangue. E vi-te. E só tive tempo de cortar com a enxada o cordão que te unia a ela. E a chuva. E os feijões. E antes que ela desaparecesse toda pela terra, já estava a cavar um buraco bem fundo ao seu lado. Mil metros de fundura. Mil metros de buraco. E demorei dez dias e tu ficaste dez dias à chuva. Sem chorares. Sem te mexeres. Para depois os feijões serem lançados no escuro.

Esteira IV

Estava nisto à meia hora e doíam-me os pés. Os meus pés sempre foram grandes e não havia sapatos que lhes servissem. Mesmo que houvesse sapatos, não tinha feijões para os comprar. Mesmo que tivesse feijões, não os podia comprar porque sou dos pobres. E quem nasce pobre morre pobre. Pobre e sem sapatos. Talvez ainda tivesse filho, se ele calçasse sapatos. Com sapatos, não procurava a terra mais pisada pelos burros, que é também a mais macia. E caminhava pelo cascalho como toda a gente. Mas filho de pobre, pobre é. E pobre não usa sapatos.
Pensei: será que a carroça já passou e eu não a vi? Pouco provável. A menos que tivessem perdido o meu registo de nascimento e, assim, não viveria até aos cento e cinquenta anos, mas para sempre. E o que quer um homem mais desta vida? O bom era se tivesse o meu filho… O que quer um homem mais desta vida? O cachopo tentava arranjar posição por debaixo da esteira. Devia ter os membros dormentes. Estava naquilo há meia hora. O homem, do outro lado da estrada, sempre com aquele catarro insolente, já tinha, há muito, passado o tempo limite de exposição contínua ao sol. Doíam-me os pés. Como daquela vez que sai de casa cedo e só voltei tinha o dia volvido. Dei-lhe um tabefe logo de manhã. E ele escondeu-me a cara. Dei-lhe o segundo tabefe logo de manhã.. Parti-lhe os lápis. E os carreiros de linhas certas foram rasgados. Quem não pode pegar na enxada também não pode pegar no lápis. Malvado o dia em que nasceste daquela tua mãe. A última que se enfiou pela terra a dentro. Não podias ser de boa estirpe. O único filho e aprendeu a escrever antes de andar. Tu escondeste-me a cara. Dei-te o terceiro tabefe logo de manhã. Ainda me lembro do toque do teu cabelo loiro misturado com as lágrimas meio contidas. E só por isso dei-te o quarto. Tu nunca foste forte. Tiveste de ficar cinco anos sem apanhar sol e escondemos-te de todos. Quem não pode apanhar sol é logo morto. Depois apareceste já crescido e os sacerdotes consideraram-te um milagre divino. Mas os sacerdotes também já foram banidos e todos esqueceram que tu já andavas quando nasceste e já comias feijão cozido inteiro, em vez de esmagado. E deixei-te a um canto em soluços e pensei: nunca vai ser um homem. Agora penso: o que é ser um homem?

Esteira III

O homem, do outro lado da estrada, estava impaciente. O cachopo já devia ir na sua vigésima árvore. A carroça não chegava. Ia de carroça para o monte. Já não o fazia há oitenta anos, desde que casei com a minha última mulher. Mais bonita e mais gorda do que as outras, servia bem para as promessas do leito e para a plantação do feijão. As outras morriam mal pegavam na enxada, dobradas ao meio pelo peso, enterravam-se pela terra a dentro e ninguém mais as vias. Perdi cinco. E por cada uma tinha pago aos pais dois feijões. Grande prejuízo. Ia de carroça para o monte porque percebi naquele dia que tinha feito cento e cinquenta anos. O tempo derrete-se como os gelados, andamos sempre preocupados em colher com a língua todos os bocados que escorregam do topo do cone. É inquietante. Estava farto de lamber os dias, ia de carroça para o monte.
A esteira é o único sítio com sombra naquela rua imensa sem árvores, para além das que o cachopo fazia no pó de gesso. E há meia hora que estava naquilo. Nessa rua não há árvores, nem há toldos, nem chapéus-de-sol, nem varandins que saem arrancados das paredes das casas. A esteira tem sombra porque desde que me lembro que está pendurada uma grande nuvem no céu por cima dela. Uma nuvem nem ameaçadora, nem daquelas que são só farrapos de nuvem. Um nuvem longa e encaracolada como as que o meu filho faria com lápis de carvão nas folhas brancas, se eu ainda o tivesse. Por baixo da nuvem, espera-se a carroça. A carroça não chegava. Por vezes a nuvem mexia-se e a esteira ia com ela. E, na esteira, por baixo da nuvem, espera-se a carroça. A carroça não chegava. A carroça só podia ser vista por aqueles que podiam andar nela. Todos os dias estava alguém, sentado na esteira, à espera. Muitos estavam dias a fio, sentados na esteira, à espera. Não a viam quando passava. Não a podiam apanhar.

11.20.2004

Esteira II

Do outro lado da estrada, estava o pai do cachopo. Com um catarro insolente, sentado na borda do passeio, às vezes olhava por detrás da expressão de enfado, outras vezes através dela. Os olhos estavam pequeninos pelo sol, que reflectia no pó de gesso. Há dias que bem andamos cegos. E nesses dias guiam-nos pelas mãos, a passo, as jovens agentes da boa circulação. Sempre a falarem com voz cantada, sempre de mão pequenina e dedos finos, sempre com um balançar de corpo, sempre com os pés a tocarem no chão sem barulho. Sempre sem as vermos. Aparecem com o excesso de luz e com as dores nos olhos. Com o nevoeiro turvo sobre as coisas, com os tropeções nos buracos das estradas secundárias onde passam os pobres, com os engarrafamentos de burros, que caem a monte com a claridade, e alguns morrem. Estava naquilo há meia hora e parecia que não respirava. Às vezes via-lhe um dedo ou um tufo de cabelo vermelho por entre as costuras mal cosidas da esteira, nos sítios onde a pele de ganso estava mais russa. O cachopo devia ser da idade do meu filho, se eu ainda o tivesse. Morreu por debaixo de um monte de burros num dia de claridade. Se eu ainda o tivesse, dizia-lhe para sair debaixo da esteira. Dizia-lhe que não se anda pelo meio das estradas dos burros, mesmo que seja divertido pisar as marcas dos cascos. Dizia-lhe que com a claridade não se brinca e que temos de chamar logo uma jovem agente da boa circulação. Dizia-lhe que o céu também escurece de dez em dez anos e que, nessa altura, chove durante vinte dias. Dizia-lhe que os feijões se plantam quando chove e que ficas garantido para os dez anos que se seguirem. Dizia-lhe que se devem pôr sempre sete feijões na reserva, porque ao fim de vinte anos já podes comprar um burro. Dizia-lhe que não tinha tido tempo para ele, porque trabalhava para ele.

Esteira I

Sentado na esteira doíam-me os pés. O pó de gesso que tinham posto para cobrir as ruas era amargo para a pele, que gretava. O pó de gesso para os pobres. Não sei como é o pó de gesso dos ricos. Estava nisto há meia hora. Sentado, à espera. Na esteira, à espera. Um cachopo estava debaixo da esteira. Estava naquilo há meia hora. Debaixo da esteira. E tinha criado uma cabana do fantástico, feita de pele de gansos como a esteira e rabiscava no chão árvores feitas de pó de gesso. Estava naquilo há meia hora, à espera que eu me levantasse para roubar a bolsa dos feijões. A bolsa dos feijões sempre presa à cintura. A bolsa que baloiçava com a esteira. A bolsa nem vazia, nem cheia. A bolsa depois do trabalho na taberna. E os dedos a cheirarem a aguardente. Os dedos a cheirarem porque havia a bolsa.

11.18.2004

Os pedididos que fazemos

Temos de ter cuidado com os pedidos que fazemos. Mas, mãe, eu quero que ele morra. Temos de ter cuidado com os pedidos que fazemos. Mãe, acreditas em Deus? Não. Então, porque é que temos de ter cuidado com os pedidos que fazemos. Porque nós temos muita força. Muita força para quê? Para tornar o que queremos em realidade. Mas eu quero que seja realidade. Eu quero que ele morra. Tu não queres, mãe? Tu não queres? Deita-te e dorme. Oh, mãe! Dorme! Mas se Deus não existe porque é que eu tenho de ir à catequese? Porque o teu pai quer. E se ele morresse, já não tinha de ir? Mãe? Sim? Já não tinha de ir? Não. Porque é que o pai não morre? Porque ainda é novo. Achas que o pai é bom? Não. Achas que é mais fácil que Deus exista ou que o pai fique bom? Que Deus exista. Mãe? Sim? Porque é que casaste com o pai? Porque o teu avô queria. O avô era parecido com o pai? Sim. Gostavas do pai? Sim. E depois deixaste de gostar? Sim. Mãe? Vamos dormir? Não tenho sono. Encosta a cabeça aqui e vamos dormir. Mas mãe!